quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Viver e atualizar o mistério da vida oculta de Jesus.





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        Se a vida consagrada, do ponto de vista utilitário, material e comercial “não tem nenhuma serventia”, muito mais se diga da vida consagrada nos Institutos Seculares. Ela se fundamenta no desconhecido, no mistério da vida oculta de Jesus. E isso a faz ainda mais incompreendida, porque, além de “não servir para nada”, como o perfume derramado na ceia de Betânia, também não aparece. Mas do ponto de vista de sua motivação, do seu sentido, do seu porque, ela encontra firme e sólido fundamento e pode responder com segurança e convicção: foi porque Jesus, em sua vida terrena, viveu assim.
        Para intuir o mistério desta vida oculta, é necessário demorar-se na contemplação e na imaginação criativa, para tentar conhecer o Senhor-Servo Jesus, quando convivia em sua terra, longe do assédio daqueles que procuravam seus milagres e faziam jejuns e caminhadas para ouvir suas palavras e seguir seus passos.     Quando queremos conhecer alguém, devemos estar atentos àquilo que é dito, mas saber que atrás do que é pronunciado há um conteúdo infinito que preenche o vazio de palavras que foram silenciadas. Aquele que é “a Palavra” continua a nos desafiar a seguir também aquilo que, do seu mistério, se disse tão pouca coisa.
       Quando se contempla Jesus, a partir de Filipenses 2, 6-8, é necessário ir além dos fatos da semana da paixão. São Paulo testemunha: “Embora fosse de divina condição, Cristo Jesus não se apegou ciosamente a ser igual em natureza a Deus Pai. Porém esvaziou-se de si mesmo e assumiu a condição de um escravo, fazendo-se aos homens semelhante. Reconhecido exteriormente como homem, humilhou-se, obedecendo até a morte, até a morte humilhante numa cruz”.     Este texto da Escritura é muito significativo para adentrarmos no conhecimento do Senhor. Deve ser levado a sério quando contemplamos a infância, a adolescência, a juventude de Jesus, porque o que Ele manifestou das bodas de Caná em diante, foi o que Ele já vinha vivendo em sua vida de todos os dias.
       Ele fez-se de tal forma “aos homens semelhante”, que causou escândalo até dentro de sua família, ao se revelar a sua verdadeira identidade. Marcos (6,2-3) nos diz que estavam admirados e diziam:“Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? E suas irmãs não moram aqui conosco? E ficaram escandalizados por causa de Jesus”.     Estas são palavras da Escritura que nos revelam Jesus em seus trinta primeiros anos. Creio que nós, consagrados e consagradas seculares, somos chamados a anunciar estas palavras que não foram escritas: a vida, a obra e o ensinamento de Jesus que antecedeu às bodas de Caná.
       Somos chamados a anunciar a partir do respeito ao mistério. Um anúncio, não a partir dos púlpitos e espaços tradicionais da religião, mas a partir do mundo. Anunciar, a partir do mergulho no mistério: revelar velando e velar revelando. Anunciar a partir do mergulho no mundo: anúncio feito de discrição em uma vida em tudo igual aos seres humanos do seu tempo, com a distinção da pertença exclusiva do coração ao Senhor e das exigências que ela comporta. Onde ninguém possa nem imaginar, ali pode estar alguém que como Jesus, se desafia a viver “cheio de graça e de verdade”. Se Jesus foi “reconhecido exteriormente como homem”, foi porque vivia como tal. Entendo que não se distinguia dos seus contemporâneos, a não ser na intensidade do cultivo de sua relação com o Pai. E o que um homem comum faz?
• trabalhar com suas próprias mãos para obter o seu sustento, e de sua família, se ela necessitar;
• conviver com sua família, vizinhos, parentes e colegas de trabalho;
• cumprir com seus deveres de cidadão, pagando impostos, estando presente nas decisões políticas em que o povo pode marcar presença;
• estudando nas escolas de sua comunidade;
• participando de celebrações e festas religiosas;
• visitando e apoiando os amigos em suas horas difíceis;
• abrindo mão de seus intervalos de descanso do trabalho para assumir tarefas voluntárias, para o bem das pessoas e da comunidade;
• participando de eventos sociais;
• sendo fiel aos compromissos assumidos com seus amigos, no trabalho e no lazer;
• agindo com justiça e misericórdia nas relações e nos negócios;
• e, se morasse no Brasil, quem sabe sendo um bom jogador de futebol, um ginasta, um velejador, um nadador, um corredor da São silvestre...
       Eu pintaria com estas e outras tonalidades semelhantes, o perfil de Jesus, reconhecido exteriormente como homem. Programa de vida dos consagrados seculares. Como pano de fundo de uma conduta assim há algo de especial: uma vida plena de sentido, radiante de desejo de colocar em prática a compaixão e a misericórdia.     Se Jesus “humilhou-se” a ponto de merecer que o apóstolo, que era perseguidor, colocasse este traço em seu perfil, é porque Ele, na aparência com que foi reconhecido, praticava a humildade, exercitava-se na humildade. É bom levar em conta que esta virtude não se aprende de uma hora para a outra, não se improvisa. Quero crer que Jesus aprendeu a humildade muito cedo, em sua família, e fazia dela uma marca registrada, para poder suportar as humilhações da paixão da forma como suportou. Ele mesmo, nos poucos momentos em que se auto-definiu como figura humana, disse ser “manso e humilde de coração”.
       O apóstolo também diz que Ele obedeceu “até a morte, até a morte humilhante numa cruz”. Este dado nos remete a outro texto dos evangelhos que diz que este filho “era submisso” a seus pais. Esta submissão, docilidade e obediência, fruto do esvaziar-se “de sua glória” e assumir “a condição de um escravo”, também não foi algo improvisado no homem Jesus.    Creio que se apliquem plenamente a Ele as palavras do salmo, que deve ter sido rezado muitas vezes em sua casa e nas liturgias em que participava “acostumei meu coração a obedecer-vos. A obedecer-vos para sempre, até o fim” (Sl 118(119), 112).Também me leva a imaginar sua determinação em cumprir suas obrigações como cidadão, como trabalhador, como líder em alguma tarefa na sociedade e na comunidade religiosa, ou participante ou organizador de uma festa.
       Nossa vida será pouca para contemplarmos este mistério e,  pacientemente, configurar nossa vida a este Homem, que foi casto, pobre e obediente, manso e humilde de coração.      Como viveu Jesus, viveram Maria e José. Esta família é o protótipo e paradigma da consagração secular: a secularidade deles foi consagrada e a  consagração deles foi secular. Mais que um trocadilho de palavras, é uma realidade quente e viva, que nos interpela constantemente e para onde devemos voltar nossos olhos e mergulhar nosso coração quando as perguntas da vida não querem calar.      Jesus, enquanto se passavam seus 30 primeiros anos, também teve uma existência redentora, que desembocou em sua vida pública e culminou no supremo ato de sacrifício da vida, tendo como ponto culminante a ressurreição. Mas a missão sempre foi a mesma, em todo o decurso de sua vida: a encomendada pelo Pai.      Na consagração secular, nos consagramos para fazer aquilo mesmo que estamos acostumados a fazer – a nossa secularidade é consagrada - e, em conseqüência, consagramos aquilo que estamos fazendo no mundo – a nossa consagração é secular -. A nossa vida como tal é matéria prima da consagração.
        A obra dos Institutos Seculares é a consagração das realidades terrenas, em qualquer ambiente secular, a partir dos valores da secularidade: a família, as relações, o trabalho, a sociedade, o mercado, o dinheiro, a política, a cultura, a economia, a ciência... Porque esta continua sendo a paixão de Deus.     É a consagração a Deus vivida sem adereços, sem maquiagem, sem roupagens. Vivida como um valor em si, por ela mesma e por aquilo que ela tem de mais essencial e fundamental: a pertença a Jesus Cristo e a entrega a Ele como Único Amor.
       Concluindo, podemos dizer que diversas são as formas das quais Deus se utiliza para aproximar dos seres humanos o seu mistério e de revelá-lo: na hierarquia da Igreja, o Senhor organiza, pastoreia e cuida; na vida consagrada, o Senhor se põe a serviço do ser humano e da hierarquia. Uns na vida consagrada “separada” do mundo, com suas casas e suas insígnias, outros, na vida consagrada “misturada” ao mundo, feitos iguais, só diferindo no mistério do chamado, visível só aos olhos da fé.      Assim, cultivando e vivendo a unidade dos ministérios e vocações, unimos o céu e a terra, o Senhor e sua criatura, o denso e o sutil, para que a família humana por inteiro, seja a família de Deus. Assim, na unidade somos sinal sensível de que o Reino de Deus está presente na terra, neste século e em todas as partes.
 
Curitiba, fevereiro de 2006.
Helena Paludo  
(Grifos ausentes no original)
 

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